Séculos XIV, XV e XVI
Azulejaria é o ramo da cerâmica cujos produtos se destinam à decoração, no sentido estrito do termo, e cuja aplicação é, especificamente, o revestimento de superfícies parietais, pavimentos etc. Restringindo ainda mais o termo, podemos considerar como azulejo, o ladrilho cerâmico vidrado na face nobre, distinguindo-se assim, do ladrilho ou mosaico vidrado ou não, ou ainda do tijolo pavimentar comum, vulgarmente designado por tijoleira.
Do ponto de vista estético ou ornamental, azulejaria distingue-se da loiça, pois comportou desde sempre outro tipo de exigências. Na loiça, são as formas que a definem e os ornatos são meramente acidentais, e de pequena escala. No azulejo, pelo contrário, o desenho e a coloração são a sua própria razão de ser, sendo a escala decorativa aquilo que o caracteriza.
O que caracteriza e individualiza a azulejaria portuguesa de entre a decoração cerâmica usada noutros países é a adequação à arquitectura numa escala de monumentalidade.
O azulejo fixou-se na Península Ibérica no século XV, enquadrado no ciclo das artesanias mudéjares. Em Portugal as mais antigas notícias escritas encontradas onde aparece a palavra azulejo são dos primeiros anos do séculos XVI, nos forais manuelinos.
O azulejo, que nessa época se utiliza em Portugal, vem de Sevilha, que na primeira metade do século XVI é praticamente o único centro fornecedor do mercado.
Anteriormente, e até à segunda metade do século XV, o alicatado era o mosaico empregue, que se obtinha com tacelos esmaltados e depois combinados entre si em laçarias geométricas o que implicava um trabalho delicado, moroso e dispendioso.
A partir da segunda metade do século XV, aparecem as tentativas de simplificação do alicatado, procurando concentrar num ladrilho quadrado os esquemas das laçarias geométricas. A técnica usada, consistia em isolar as áreas a esmaltar por sulcos, mais ou menos profundos, que impedissem a mistura de esmaltes durante o processo de fusão.


Azulejos alicatados: Sala das Sereias e Sala Árabe
Era, aliás, uma técnica já bem familiar na Europa medieval e praticada nos esmaltes sobre cobre: ”cuerda seca”.
Este aperfeiçoamento, permitiu um extraordinário aumento de produção, uma estandardização de padrões e, consequentemente, um abaixamento do preço de custo; simultaneamente facilitavam-se os processos de coloração e de aplicação.
Nos finais do século XV novo procedimento aparece para obter a separação dos esmaltes; em Espanha chamam-lhe “Arista” ou “Cuenca” (aresta em português).
Nesta técnica, utilizam-se moldes de madeira com sulcos formando desenhos: aplicados sobre pressão à placa de argila ainda húmida deixavam arestas compartimentando as áreas a encher com o esmalte.
Ainda que cronologicamente os azulejos de corda seca sejam anteriores aos de aresta, o certo é que ambas as técnicas coexistiram durante os primeiros decénios do século XVI, reproduzindo-se os mesmos esquemas decorativos de laçarias geométricas, indiferentemente de um ou outro processo.
No segundo quartel do século XVI a corda seca cede lugar à aresta e é neste processo que se produz a maior quantidade de azulejos de lavores, tanto para decoração parietal como pavimentar.
Em relação à azulejaria do Palácio Nacional de Sintra sabemos que vêm na sua maioria, de Sevilha e que a importação terá começado ainda no século XV, tendo continuado com mais intensidade depois de 1500 e fazendo-se sistematicamente até 1550.
Pavimento cerâmico da Capela
O célebre tapete da capela dos Paços de Sintra, foi responsável pela atribuição lendária da origem árabe deste edifício.
Os vários estudos actuais, não permitem aceitar a sua construção antes do século XIV. Em relação ao pavimento da Capela, este sugere, pela decoração das laçarias mouriscas, a intervenção directa de artífices experientes neste tipo trabalho. A técnica de composição do mosaico, lembra a dos “alicatados” andaluzes, sem que no entanto, se reconheça o requinte de execução que caracteriza os alicatados granadinos ou mesmo sevilhanos. Também, o exame do próprio material - barro ferruginoso e vermelho - contrasta com as argilas utilizadas na Andaluzia, estas mais silicosas e claras.
Por outro lado, sabe-se que D. Afonso V, aquando das conquistas na costa marroquina, trouxe consigo artífices mouros, e assim este facto leva-nos a supor terem sido eles os responsáveis por este “tapete” alicatado, que teriam executado a partir do barro local.







Pormenores do pavimento: Capela palatina
Fotos: © Luís Marreiros / IMC
Quarto de Dom Afonso VI
Toda a área pavimentar está atapetada com azulejos, cobrindo cerca de 20 metros quadrados. Não é um alicatado ou um mosaico no sentido estrito destes termos mas uma combinação de azulejos de vários formatos e dimensões ostentando desenhos de padronagem mourisca, técnica e morfologicamente diferenciados de quaisquer modelos peninsulares.
Estes azulejos, onde predominam colorações de verdes desmaiados de vários tons, castanhos de manganês e amarelos, apresentam dimensões várias. O barro é nitidamente ferruginoso, igual ao que vimos no tapete da Capela. São ambos exemplares sui generis que não se encontram iguais em Espanha nem em Portugal.
Os azulejos do chão do quarto fogem aos tipos conhecidos.
O processo parece participar da técnica de Valência - emprego de óxido de estanho - e da decoração andaluza, ou melhor marroquina.
Fabricados em Sintra, com barro da região por algum mouro?





Pormenores do pavimento: Quarto de Dom Afonso VI
Fotos: © Cláudio Marques / IMC
Sala das Sereias
Outra decoração insólita é a que se observa no ajimez de uma das portas desta pequena sala. São ladrilhos cerâmicos esgrafitados, cuja ornamentação de arabescos é obtida pelo processo de abrir a buril o vidrado do azulejo até ao suporte de barro, o qual aparece na sua cor natural ou avivado com cal ou betume branco. Tal processo técnico foi e continua a ser corrente em Marrocos.
Os Azulejos esgrafitados da Sala das Sereias, revelam a presença em Sintra de um artífice especializado, neste trabalho, já que só ele os poderia ter feito no próprio local, seguindo e adequando-os à cantaria da porta gótica. É aliás, assim, que ainda hoje se procede em Marrocos: os azulejos lisos de uma só cor, são colocados nas paredes e, depois, vêm os artistas que “esgrafitam”.
Também se pode aceitar que os azulejos esgrafitados desta sala são anteriores aos restantes que cobrem as paredes, pois se estes últimos são do princípio do século XVI, os primeiros devem ser do tempo das obras de D. Afonso V (cerca de 1470).
Enquandrando a silharia da porta foi composto um alicatado simples com tacelos verdes, negros e brancos, formando um encanastrado. O material é o mesmo do esgrafitado e provavelmente são da mesma época.
Do tapete da Capela, do pavimento do Quarto de D. Afonso VI, a do ajimez da Sala das Sereias, parece poder deduzir-se que nos meados do século XV, talvez mais precisamente, após a tomada de Arzila (1471) se incrementou a aplicação da cerâmica, havendo como factor comum a identidade do barro, a composição mourisca e o uso de técnicas especializadas que não provinham de Espanha. Ao rei “Africano” ficamos devendo estes exemplares e com eles, o gosto pela decoração azulejar que havia de prevalecer até hoje.

Pormenor de decoraçao azulejar da porta da Sala das Sereias
Azulejos de “corda–seca”
Destes azulejos há mais que uma variedade de desenho, todos aliás, tendo por base um esquema comum, esquema que pode estar na origem do traçado das laçarias geométricas. Os esmaltes empregados são o branco e o verde, a “corda–seca” é discreta e pouco pronunciada obtida com um estilete fino que apenas fere a superfície do barro, notando-se, no entanto, que o traço foi feito com um “separador”, provavelmente óleo de linhaça. Devem ser todos do século XVI e de fabricação sevilhana, mas feitos propositadamente para exportação.
Os azulejos com a esfera armilar, são de corda seca, tipicamente sevilhanos, como também de Sevilha são os Azulejos de laçarias que existem por todo o Palácio, e que na primeira metade do século XVI eram bem conhecidos no reportório desta cidade.


Azulejos de corda-seca: Sala de Dom Sebastião

Azulejos de corda-seca: Sala das Pegas
Azulejos de aresta
Azulejos de aresta, existem alguns que podem ter vindo numa primeira encomenda de D. Manuel em 1508, mas a maioria é posterior a 1518, sendo a maior parte das decorações azulejares do Palácio da época de 1530.


Azulejos de aresta: Capela palatina
Azulejos relevados
Azulejos relevados são quinhentistas e não se encontram em Sevilha, apenas os vemos nos Paços de Sintra. A técnica de fabrico é em barro moldado em formas, um espírito decorativo acentuado e até rebuscado naturalismo fitomórfico que não faziam parte de qualquer tradição portuguesa nem tiveram consequências futuras. Existem cinco variedades diferentes além dos motivos de remate da Sala dos Árabes.

Azulejos relevados com o motivo da parra e gavinha: Sala de Dom Sebastião

Azulejos relevados com folhas de videira: Sala das Sereias
Trabalho fotográfico desenvolvido por:

Curso de Profissional de Fotografia - Joana Rodrigues
© Joana Rodrigues / EPI